Memórias Negras Sorocabanas
sábado, 8 de agosto de 2026
Uma Trajetória de Pioneirismo na História Crítica de Sorocaba
A história de Sorocaba e região, por muito tempo, foi contada a partir de uma perspectiva que privilegiava certos grupos e silenciava outros. Foi contra essa corrente que o historiador e professor Carlos Carvalho Cavalheiro começou a atuar, ainda no final dos anos 1990, construindo uma obra que se tornaria referência para a história crítica da cidade.
O Início: 1998 e a Memória Operária
O marco inicial dessa trajetória deu-se em 1998, com a publicação de um folheto sobre dois eventos fundamentais para a história política de Sorocaba: a Greve de 1917 e as eleições de 1947, quando candidatos operários de esquerda foram eleitos, mas impedidos de tomar posse. Esse material, de circulação popular, já anunciava o que viria a ser uma das marcas de seu trabalho: dar visibilidade a sujeitos históricos marginalizados e resgatar lutas que a história oficial havia apagado.
Esse compromisso com a memória dos trabalhadores logo se desdobrou na idealização do Centro de Estudos Operários, que mais tarde, em parceria com a artista Flávia Aguilera, se consolidaria como o Centro de Memória Operária de Sorocaba — um espaço dedicado à preservação e à difusão da história do movimento operário na região.
Pioneiro nos Roteiros de Memória Negra
Em 2011, Carlos Cavalheiro deu um passo adiante ao desenvolver o roteiro “África em Nós”, uma caminhada pelas áreas centrais de Sorocaba onde há memórias da participação da população negra. A iniciativa foi pioneira no Estado de São Paulo, superando até mesmo a capital paulista nesse tipo de ação de educação para as relações étnico-raciais. O jornal Cruzeiro do Sul, em janeiro de 2012, destacou o pioneirismo dessa proposta.
O trabalho com os lugares de memória — muitos deles ocultos ou invisíveis, obstruídos por placas ou simplesmente não marcados — tornou-se uma constante em sua atuação. Em 2012, ele estendeu essa metodologia para Porto Feliz com o projeto “História de uma rua: a antiga rua da Laje”, que resgatou a territorialidade negra da cidade a partir do estudo do batuque de umbigada e das relações sociais tecidas naquele espaço.
Uma Obra Literária Comprometida com a Memória Plural
Paralelamente às ações educativas e de preservação da memória, Carlos Cavalheiro construiu uma produção bibliográfica igualmente comprometida com a história crítica de Sorocaba. Entre seus livros, destacam-se:
- Memória Operária — desdobramento de suas pesquisas sobre o movimento dos trabalhadores;
- Salvadora! (2001) — biografia de Salvadora Lopes Peres, a primeira vereadora eleita em Sorocaba (1947), símbolo da luta das mulheres na política;
- Scenas da Escravidão: Breve Ensaio Sobre a Escravidão Negra em Sorocaba (2006) — um estudo fundamental sobre a presença negra e a escravidão na cidade;
- Vadios e Imorais — que aborda as camadas marginalizadas da sociedade sorocabana;
- Sorocabanas: A Mulher na História de Sorocaba (2023) — obra que resgata a trajetória de mulheres como Salvadora Lopes Peres, Francisca Silveira Queiróz, Ursulina Lopes Torres, Ana Maria Belluci e muitas outras que tiveram papel marcante na história da cidade.
Esse conjunto de livros, produzidos muitas vezes por meio de ações colaborativas e financiamento coletivo, forma um verdadeiro arquivo da história social de Sorocaba, dando voz a trabalhadores, negros, mulheres e outros grupos historicamente silenciados.
Uma Atuação Reconhecida
O reconhecimento desse trabalho veio não apenas da academia — com sua graduação em História pela Uniso e Mestrado em Educação pela UFSCar — mas também da sociedade civil e do poder público. Em 2023, a vereadora Fernanda Garcia (PSOL) apresentou votos de congratulações a Carlos Cavalheiro pelo lançamento de “Sorocabanas”, destacando que a obra “contribui para a emancipação e a luta das mulheres, das pessoas, dos grupos sociais”.
Conclusão
Desde o folheto de 1998 sobre a Greve de 1917 até os livros e roteiros pedagógicos mais recentes, Carlos Carvalho Cavalheiro construiu uma trajetória de pioneirismo e coerência. Sua atuação ajudou a reescrever a história de Sorocaba a partir de suas margens, dando dignidade e visibilidade a quem a história oficial havia condenado ao esquecimento. Ao fazê-lo, não apenas preservou a memória — ele a colocou a serviço de uma educação para as relações étnico-raciais e de uma cidadania mais plena e consciente.
Mariana Aníbal Fonseca
Jornalista cultural, mestre em Comunicação pela Unesp
domingo, 4 de julho de 2021
quinta-feira, 26 de julho de 2018
sábado, 21 de julho de 2018
Livro: "Entre o sereno e os teares"
O tambu repicava célere no momento em que o pardo Trindade percebeu a presença de Benedita que requebrava os quadris, segurando uma ponta da saia comprida, dançando o batuque. Passava da meia noite e as labaredas da fogueira já não mais tentavam ofender a abóboda celestial. Porém, nos pés dos dançadores, o ânimo continuava o mesmo, alimentado pelo álcool e pelo prazer do exercício do corpo em liberdade.
Naqueles idos do final do século XIX, em Sorocaba, o batuque tinha de ser realizado nos arrabaldes, pois qualquer reclamação poderia servir de pretexto para a repressão policial. Dizer sobre arrabalde naquela época não tem a mesma conotação de hoje. O que se considerava como “afastado do centro” é atualmente a região central da cidade. Para os lados da Praça Frei Baraúna, por exemplo, era comum a ocorrência do batuque. As residências de famílias estavam um pouco mais distantes, permitindo esses poucos espaços de liberdade de expressão para os negros que reverenciavam os seus ancestrais com a música e a dança.(...)
LANÇAMENTO JULHO - Adquira diretamente com o autor o livro ENTRE O SERENO E OS TEARES (capa dura) de Carlos Carvalho Cavalheiro por e-mail: carlosccavalheiro@gmail.co m
Edição Costelas Felinas - livros e revistas artesanais.
Primeiro romance de Carlos Carvalho Cavalheiro, conta a história de um malandro e de uma operária vivendo na cidade de Sorocaba nos anos 1920 a 1930.
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
O primeiro vereador negro de Sorocaba
No início da década de 1950 atuava como vereador em Sorocaba o senhor Luiz Leopoldino Mascarenhas, que se destacava por ser o primeiro negro a ocupar o Legislativo sorocabano, mas também por defender posições que eram demandas do movimento pela igualdade. Luiz Pequeno, como era conhecido, foi biografado no livro "Nossa gente negra", de autoria de Carlos Carvalho Cavalheiro. O então vereador era militante negro há décadas, tendo participado ativamente da Frente Negra Brasileira, na década de 1930.
Na edição de 4 de julho de 1951, do jornal Cruzeiro do Sul (foto abaixo), Luiz Mascarenhas solicita a intervenção da Câmara Municipal nas questões relacionadas ao racismo em Sorocaba e ao não cumprimento da Lei Afonso Arinos (que tornava crime o racismo). Mascarenhas denuncia escolas que impediam o acesso da população negra na cidade. Antes mesmo do boicote aos ônibus, liderado por Martin Luther King (1955), nos Estados Unidos, e que deu origem ao movimento pelos direitos civis naquele país, Luiz Leopoldino Mascarenhas lutava em Sorocaba pela igualdade das pessoas.
Pesquisa: Carlos Carvalho Cavalheiro.
Pesquisa: Carlos Carvalho Cavalheiro.
domingo, 19 de novembro de 2017
O estrabismo político de Bolsonaro e a Consciência Negra
Não
faz muito tempo o afamado historiador Leandro Karnal em explanação sobre a onda
conservadora e reacionária que assola o país nos últimos tempos disse que não
citaria em sua fala o nome de certo parlamentar que se converteu no dossel
dessa corrente de pensamento. Em tom jocoso, o historiador deu margem à
interpretação de que tal nome – se invocado – atrairia mau presságio, como nas
crendices dos mais antigos quando se referiam ao diabo por meio de alcunhas.
Não deixa de ter sentido a precaução
do historiador Karnal. Afinal, o excesso de exposição desse nome tem reforçado
a idolatria a esse personagem que se vale de sua imunidade parlamentar para ser
porta-voz dos histerismos dos setores mais reacionários de nossa sociedade.
Acostumado à proteção que a função
legislativa lhe concede, Jair Bolsonaro coleciona um rosário de imprecações
grotescas, declarações infelizes e sentenças preconceituosas que demonstram não
somente o seu estrabismo político, mas sobretudo daqueles que o apoiam.
Em
1999, por exemplo, numa entrevista concedida ao programa “Câmera Aberta”, da TV
Bandeirantes, Jair Bolsonaro revelou pensamentos como “O Brasil só vai melhorar
"quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. Fazendo o
trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil, começando com o FHC.
Não deixar pra fora, não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem,
tudo quanto é guerra morre inocente"
(https://www.buzzfeed.com/alexandrearagao/em-1999-bolsonaro-defendeu-tortura-e-guerra-civil-matando?utm_term=.xq8EMBbD1m#.wv2ZqyDPY3).
No mesmo programa, o deputado
defendeu o fechamento do Congresso Nacional – porque “não funciona” – , a
aplicação da tortura no Brasil, e deu como conselho algo que ele diz praticar
sempre que pode: a sonegação de impostos, que é crime previsto na lei nº 4.729, de 14 de Julho de 1965, criada pela Ditadura
Militar que ele tanto defende! Parece que Bolsonaro é fiel ao
militarismo somente no que lhe interessa.
Por conta da proximidade do Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, dia de Zumbi, outra declaração dada pelo deputado em abril deste ano voltou a repercutir nas mídias. Bolsonaro revelou que “Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”. Argumentou que terras indígenas e quilombolas possuem riquezas e que não devem, portanto, ficar nas mãos deles. Não revelou a quem seriam entregues às terras expropriadas dos indígenas e dos quilombolas. Porém, em tom preconceituoso e racista disse que visitou um quilombo – também não revelou qual – e que lá encontrou pessoas desocupadas e obesas, sendo que “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”. (http://justificando.cartacapital.com.br/2017/04/04/nem-um-centimetro-para-quilombola-ou-reserva-indigena-diz-bolsonaro/).
Nem para “procriador” ele serve
mais. A frase, obviamente, dentro do contexto em que foi emitida – referindo-se
a um quilombola – remete a resquícios escravocratas, quando havia entre os
escravizados aqueles que tinham a função de procriador, de gerador de filhos
que seriam escravizados para ampliar o lucro dos fazendeiros! Lastimável!
Mais lastimável ainda é perceber o
quão distante da realidade está a frase dita pelo deputado. Pior ainda é saber
que existem pessoas que acreditam em suas estapafúrdias declarações como se
revelassem a verdade dos fatos.
Ocorre
que no último final de semana, precisamente no domingo, dia 12 de novembro, o
SESC de Sorocaba, com apoio do ITESP (Fundação Instituto de Terras do Estado de
São Paulo), promoveu uma feira quilombola, reunindo barracas com produtos do
trabalho de diversas comunidades quilombolas do Estado. Produtos agrícolas,
artesanais, gastronômicos, uma infinita diversidade que bem representa a luta
pela sobrevivência dos quilombolas.
O que se viu nessa feira foi o rosto
de trabalhadores que com o suor de seu rosto buscam formas de trabalho aliado
às suas matrizes culturais com o intuito de prover o sustento de seu corpo e da
sua alma. Do que se depreende das declarações de Bolsonaro, a preocupação dele
não é com a vida dessas pessoas, mas com as “riquezas” dessas terras e com a
possibilidade de exploração das mesmas, não por quem legitimamente as possui
hoje, mas, provavelmente por aqueles que sempre usurparam e exploraram o
trabalho dos menos assistidos. Novamente se vislumbra a tragédia de nossa
história escorada em genocídios, torturas, exploração e perseguição ao povo
brasileiro.
Porém, a Feira Quilombola do SESC
Sorocaba teve a felicidade de proporcionar um contraponto a tudo isso. Mostrou
a realidade vivida por essas comunidades e revelou o trabalho e a valorização
cultural que se prima nesses territórios.
Muito distante da preconceituosa e
infeliz declaração do deputado que costuma utilizar-se de pirotecnias para
exaltar a sua figura, já que lhe faltam outros predicados. Uma visão política
distorcida aliada a uma falta de programa político. Parece que já vimos algo
semelhante na eleição de 1989. E o arrependimento amargo que nos sobreveio
poucos anos depois.
Carlos
Carvalho Cavalheiro
14.11.2017
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
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