sábado, 8 de agosto de 2026

Uma Trajetória de Pioneirismo na História Crítica de Sorocaba

A história de Sorocaba e região, por muito tempo, foi contada a partir de uma perspectiva que privilegiava certos grupos e silenciava outros. Foi contra essa corrente que o historiador e professor Carlos Carvalho Cavalheiro começou a atuar, ainda no final dos anos 1990, construindo uma obra que se tornaria referência para a história crítica da cidade. O Início: 1998 e a Memória Operária O marco inicial dessa trajetória deu-se em 1998, com a publicação de um folheto sobre dois eventos fundamentais para a história política de Sorocaba: a Greve de 1917 e as eleições de 1947, quando candidatos operários de esquerda foram eleitos, mas impedidos de tomar posse. Esse material, de circulação popular, já anunciava o que viria a ser uma das marcas de seu trabalho: dar visibilidade a sujeitos históricos marginalizados e resgatar lutas que a história oficial havia apagado. Esse compromisso com a memória dos trabalhadores logo se desdobrou na idealização do Centro de Estudos Operários, que mais tarde, em parceria com a artista Flávia Aguilera, se consolidaria como o Centro de Memória Operária de Sorocaba — um espaço dedicado à preservação e à difusão da história do movimento operário na região. Pioneiro nos Roteiros de Memória Negra Em 2011, Carlos Cavalheiro deu um passo adiante ao desenvolver o roteiro “África em Nós”, uma caminhada pelas áreas centrais de Sorocaba onde há memórias da participação da população negra. A iniciativa foi pioneira no Estado de São Paulo, superando até mesmo a capital paulista nesse tipo de ação de educação para as relações étnico-raciais. O jornal Cruzeiro do Sul, em janeiro de 2012, destacou o pioneirismo dessa proposta. O trabalho com os lugares de memória — muitos deles ocultos ou invisíveis, obstruídos por placas ou simplesmente não marcados — tornou-se uma constante em sua atuação. Em 2012, ele estendeu essa metodologia para Porto Feliz com o projeto “História de uma rua: a antiga rua da Laje”, que resgatou a territorialidade negra da cidade a partir do estudo do batuque de umbigada e das relações sociais tecidas naquele espaço. Uma Obra Literária Comprometida com a Memória Plural Paralelamente às ações educativas e de preservação da memória, Carlos Cavalheiro construiu uma produção bibliográfica igualmente comprometida com a história crítica de Sorocaba. Entre seus livros, destacam-se: - Memória Operária — desdobramento de suas pesquisas sobre o movimento dos trabalhadores; - Salvadora! (2001) — biografia de Salvadora Lopes Peres, a primeira vereadora eleita em Sorocaba (1947), símbolo da luta das mulheres na política; - Scenas da Escravidão: Breve Ensaio Sobre a Escravidão Negra em Sorocaba (2006) — um estudo fundamental sobre a presença negra e a escravidão na cidade; - Vadios e Imorais — que aborda as camadas marginalizadas da sociedade sorocabana; - Sorocabanas: A Mulher na História de Sorocaba (2023) — obra que resgata a trajetória de mulheres como Salvadora Lopes Peres, Francisca Silveira Queiróz, Ursulina Lopes Torres, Ana Maria Belluci e muitas outras que tiveram papel marcante na história da cidade. Esse conjunto de livros, produzidos muitas vezes por meio de ações colaborativas e financiamento coletivo, forma um verdadeiro arquivo da história social de Sorocaba, dando voz a trabalhadores, negros, mulheres e outros grupos historicamente silenciados. Uma Atuação Reconhecida O reconhecimento desse trabalho veio não apenas da academia — com sua graduação em História pela Uniso e Mestrado em Educação pela UFSCar — mas também da sociedade civil e do poder público. Em 2023, a vereadora Fernanda Garcia (PSOL) apresentou votos de congratulações a Carlos Cavalheiro pelo lançamento de “Sorocabanas”, destacando que a obra “contribui para a emancipação e a luta das mulheres, das pessoas, dos grupos sociais”. Conclusão Desde o folheto de 1998 sobre a Greve de 1917 até os livros e roteiros pedagógicos mais recentes, Carlos Carvalho Cavalheiro construiu uma trajetória de pioneirismo e coerência. Sua atuação ajudou a reescrever a história de Sorocaba a partir de suas margens, dando dignidade e visibilidade a quem a história oficial havia condenado ao esquecimento. Ao fazê-lo, não apenas preservou a memória — ele a colocou a serviço de uma educação para as relações étnico-raciais e de uma cidadania mais plena e consciente. Mariana Aníbal Fonseca Jornalista cultural, mestre em Comunicação pela Unesp

quinta-feira, 26 de julho de 2018

sábado, 21 de julho de 2018

Livro: "Entre o sereno e os teares"

O tambu repicava célere no momento em que o pardo Trindade percebeu a presença de Benedita que requebrava os quadris, segurando uma ponta da saia comprida, dançando o batuque. Passava da meia noite e as labaredas da fogueira já não mais tentavam ofender a abóboda celestial. Porém, nos pés dos dançadores, o ânimo continuava o mesmo, alimentado pelo álcool e pelo prazer do exercício do corpo em liberdade.
Naqueles idos do final do século XIX, em Sorocaba, o batuque tinha de ser realizado nos arrabaldes, pois qualquer reclamação poderia servir de pretexto para a repressão policial. Dizer sobre arrabalde naquela época não tem a mesma conotação de hoje. O que se considerava como “afastado do centro” é atualmente a região central da cidade. Para os lados da Praça Frei Baraúna, por exemplo, era comum a ocorrência do batuque. As residências de famílias estavam um pouco mais distantes, permitindo esses poucos espaços de liberdade de expressão para os negros que reverenciavam os seus ancestrais com a música e a dança.(...)

LANÇAMENTO JULHO - Adquira diretamente com o autor o livro ENTRE O SERENO E OS TEARES (capa dura) de Carlos Carvalho Cavalheiro por e-mail: carlosccavalheiro@gmail.com

Edição Costelas Felinas - livros e revistas artesanais.



Primeiro romance de Carlos Carvalho Cavalheiro, conta a história de um malandro e de uma operária vivendo na cidade de Sorocaba nos anos 1920 a 1930.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O primeiro vereador negro de Sorocaba

No início da década de 1950 atuava como vereador em Sorocaba o senhor Luiz Leopoldino Mascarenhas, que se destacava por ser o primeiro negro a ocupar o Legislativo sorocabano, mas também por defender posições que eram demandas do movimento pela igualdade. Luiz Pequeno, como era conhecido, foi biografado no livro "Nossa gente negra", de autoria de Carlos Carvalho Cavalheiro. O então vereador era militante negro há décadas, tendo participado ativamente da Frente Negra Brasileira, na década de 1930.
Na edição de 4 de julho de 1951, do jornal Cruzeiro do Sul (foto abaixo), Luiz Mascarenhas solicita a intervenção da Câmara Municipal nas questões relacionadas ao racismo em Sorocaba e ao não cumprimento da Lei Afonso Arinos (que tornava crime o racismo). Mascarenhas denuncia escolas que impediam o acesso da população negra na cidade. Antes mesmo do boicote aos ônibus, liderado por Martin Luther King (1955), nos Estados Unidos, e que deu origem ao movimento pelos direitos civis naquele país, Luiz Leopoldino Mascarenhas lutava em Sorocaba pela igualdade das pessoas.

Pesquisa: Carlos Carvalho Cavalheiro.

domingo, 19 de novembro de 2017

O estrabismo político de Bolsonaro e a Consciência Negra

 Não faz muito tempo o afamado historiador Leandro Karnal em explanação sobre a onda conservadora e reacionária que assola o país nos últimos tempos disse que não citaria em sua fala o nome de certo parlamentar que se converteu no dossel dessa corrente de pensamento. Em tom jocoso, o historiador deu margem à interpretação de que tal nome – se invocado – atrairia mau presságio, como nas crendices dos mais antigos quando se referiam ao diabo por meio de alcunhas.
            Não deixa de ter sentido a precaução do historiador Karnal. Afinal, o excesso de exposição desse nome tem reforçado a idolatria a esse personagem que se vale de sua imunidade parlamentar para ser porta-voz dos histerismos dos setores mais reacionários de nossa sociedade.
            Acostumado à proteção que a função legislativa lhe concede, Jair Bolsonaro coleciona um rosário de imprecações grotescas, declarações infelizes e sentenças preconceituosas que demonstram não somente o seu estrabismo político, mas sobretudo daqueles que o apoiam.

            Em 1999, por exemplo, numa entrevista concedida ao programa “Câmera Aberta”, da TV Bandeirantes, Jair Bolsonaro revelou pensamentos como “O Brasil só vai melhorar "quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. Fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil, começando com o FHC. Não deixar pra fora, não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente" (https://www.buzzfeed.com/alexandrearagao/em-1999-bolsonaro-defendeu-tortura-e-guerra-civil-matando?utm_term=.xq8EMBbD1m#.wv2ZqyDPY3).

            No mesmo programa, o deputado defendeu o fechamento do Congresso Nacional – porque “não funciona” – , a aplicação da tortura no Brasil, e deu como conselho algo que ele diz praticar sempre que pode: a sonegação de impostos, que é crime previsto na lei nº 4.729, de 14 de Julho de 1965, criada pela Ditadura Militar que ele tanto defende! Parece que Bolsonaro é fiel ao militarismo somente no que lhe interessa.
           Por conta da proximidade do Dia da Consciência Negra, 20 de Novembro, dia de Zumbi, outra declaração dada pelo deputado em abril deste ano voltou a repercutir nas mídias. Bolsonaro revelou que “Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”. Argumentou que terras indígenas e quilombolas possuem riquezas e que não devem, portanto, ficar nas mãos deles. Não revelou a quem seriam entregues às terras expropriadas dos indígenas e dos quilombolas. Porém, em tom preconceituoso e racista disse que visitou um quilombo – também não revelou qual – e que lá encontrou pessoas desocupadas e obesas, sendo que “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”. (http://justificando.cartacapital.com.br/2017/04/04/nem-um-centimetro-para-quilombola-ou-reserva-indigena-diz-bolsonaro/).
            Nem para “procriador” ele serve mais. A frase, obviamente, dentro do contexto em que foi emitida – referindo-se a um quilombola – remete a resquícios escravocratas, quando havia entre os escravizados aqueles que tinham a função de procriador, de gerador de filhos que seriam escravizados para ampliar o lucro dos fazendeiros! Lastimável!
            Mais lastimável ainda é perceber o quão distante da realidade está a frase dita pelo deputado. Pior ainda é saber que existem pessoas que acreditam em suas estapafúrdias declarações como se revelassem a verdade dos fatos. 
        Ocorre que no último final de semana, precisamente no domingo, dia 12 de novembro, o SESC de Sorocaba, com apoio do ITESP (Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo), promoveu uma feira quilombola, reunindo barracas com produtos do trabalho de diversas comunidades quilombolas do Estado. Produtos agrícolas, artesanais, gastronômicos, uma infinita diversidade que bem representa a luta pela sobrevivência dos quilombolas.
            O que se viu nessa feira foi o rosto de trabalhadores que com o suor de seu rosto buscam formas de trabalho aliado às suas matrizes culturais com o intuito de prover o sustento de seu corpo e da sua alma. Do que se depreende das declarações de Bolsonaro, a preocupação dele não é com a vida dessas pessoas, mas com as “riquezas” dessas terras e com a possibilidade de exploração das mesmas, não por quem legitimamente as possui hoje, mas, provavelmente por aqueles que sempre usurparam e exploraram o trabalho dos menos assistidos. Novamente se vislumbra a tragédia de nossa história escorada em genocídios, torturas, exploração e perseguição ao povo brasileiro.
            Porém, a Feira Quilombola do SESC Sorocaba teve a felicidade de proporcionar um contraponto a tudo isso. Mostrou a realidade vivida por essas comunidades e revelou o trabalho e a valorização cultural que se prima nesses territórios.
          Muito distante da preconceituosa e infeliz declaração do deputado que costuma utilizar-se de pirotecnias para exaltar a sua figura, já que lhe faltam outros predicados. Uma visão política distorcida aliada a uma falta de programa político. Parece que já vimos algo semelhante na eleição de 1989. E o arrependimento amargo que nos sobreveio poucos anos depois.

Carlos Carvalho Cavalheiro

14.11.2017

sábado, 25 de março de 2017

Sorocaba e a condição local para o movimento negro em 1945


Trabalho de Conclusão de Curso apresentado por Renata Barboza Rodrigues, em 2014, como exigência parcial para obtenção do Diploma de Graduação em Licenciatura Plena em História, da Universidade de Sorocaba. 
Orientadores: Profª Ms. Cássia Maria Baddini Prof.º Dr. Rogério L. P. de Carvalho.



https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxjYXJsb3NjYXJ2YWxob2NhdmFsaGVpcm98Z3g6NmViNmEzODE0MzU1YzY5MA

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ainda sobre a Mãe Preta

A estátua da Mãe Preta foi inaugurada em Sorocaba no dia 13 de maio de 1978. A colocação da estátua em seu pedestal se deu no dia 3 de maio, sendo amplamente noticiada pelo jornal Cruzeiro do Sul. Na matéria da época, o jornal salientou que "durante todo o período em que a escravidão imperou no Brasil, a negra escrava, aquela que era forte, sadia e fértil, serviu de ama-de-leite para os filhos dos senhores brancos, deixando até mesmo os seus próprios filhos em segundo plano na amamentação".

domingo, 13 de novembro de 2016

Preto Pio lutou pela liberdade

Poucos sabem, mas em fins de outubro de 1887 ocorreu uma fuga de escravos na cidade de Capivari / SP. O líder dessa fuga era o escravo conhecido por Preto Pio. Centenas de escravos fugiram das fazendas dessa cidade e também de Porto Feliz e Sorocaba. Foram à pé até a Serra do Cubatão, onde, ocorreu um desentendimento entre Preto Pio e um soldado do exército, resultando na morte de ambos.
A luta do Preto Pio acabou por resultar na recusa do Exército brasileiro em continuar dando caça aos escravos fugitivos e, consequentemente, impulsionou a assinatura da Lei Áurea (13 de maio de 1888) seis meses depois desse episódio.

Preto Pio é o Spartacus e é o Zumbi do Médio Tietê!

Viva a memória do Preto Pio!

"Senhora!
"Os oficiais, membros do Clube Militar, pedem a Vossa Alteza Imperial vénia para dirigir ao Governo Imperial um pedido, que é antes uma súplica... ". . .Esperam que o Governo Imperial não consinta que nos destacamentos do Exército, que seguem para o interior, com o fim, sem dúvida, de manter a ordem, tranqüilizar a população e garantir a inviolabilidade das famílias, os soldados sejam encarregados da captura de pobres negros, que fogem à escravidão, ou porque vivam já cansados de sofrer os horrores, ou porque um raio de luz da liberdade lhes tenha aquecido o coração e iluminado a alma.Senhora! A liberdade é o maior bem que possuímos sobre a terra; uma vez violado o direito que tem a personalidade de agir, o homem, para reconquistá-lo, é capaz de tudo: de um momento, um covarde torna-se um herói; ele, que dantes era a inércia, se multiplica e se subdivide, e, ainda mesmo esmagado pelo peso da dor e das perseguições, ainda mesmo reduzido a morrer, de suas cinzas renasce sempre mais bela e mais pura a liberdade... Impossível, pois, Senhora, esmagar a alma humana que quer ser livre. Por isso, os membros do Clube Militar, em nome dos mais santos princípios da humanidade, em nome da solidariedade humana, em nome da civilização, em nome da caridade cristã, em nome das dores de Sua Majestade, o Imperador, vosso augusto Pai, cujos sentimentos julgam interpretar e sobre cuja ausência choram lágrimas de saudades, em nome do vosso futuro e do futuro de vosso filho, esperam que o Governo Imperial não consinta que os oficiais e as praças do Exército sejam desviados da sua nobre missão. Eles não desejam o esmagamento do preto pelo branco e não consentiriam também que o preto, embrutecido pelos horrores da escravidão, conseguisse garantir a sua liberdade esmagando o branco. O Exército havia de manter a ordem. Mas, diante de homens que fogem calmos, sem ruído, mas traquilamente, evitando, tanto a escravidão como a luta, e dando, ao atravessar cidades, enormes exemplos de moralidade, cujo esquecimento tem feito muitas vezes a desonra do Exército mais civilizado, o Exército Brasileiro espera que o Governo Imperial conceder-lhe-á o que respeitosamente pede em nome da humanidade e da honra da própria bandeira que defende." 
26 de outubro de 1887  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

NEGRO, JOVEM E HIP HOPPER: HISTÓRIA, NARRATIVA E IDENTIDADE EM SOROCABA

NEGRO, JOVEM E HIP HOPPER: HISTÓRIA, NARRATIVA E IDENTIDADE EM SOROCABA

JAQUELINE LIMA SANTOS 

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Filosofia e Ciências – Campus de Marília, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Ciências Sociais. Orientador: Prof. Dr. Andreas Hofbauer



Esta pesquisa tem por objetivo entender o estabelecimento do movimento Hip Hop na cidade de Sorocaba (SP) por meio da experiência negra deste município. Para chegar a tal objetivo tomou-se como referência a trajetória de vida de Márcio Brown: jovem negro que, ao relatar sua memória pautada por questões raciais, expõe elementos coletivos que nos permitem entender o momento de consolidação deste movimento em sua cidade. Intencionamos, a partir de um relato autobiográfico, explicar processos de subjetivação que levam a mobilizações político-raciais e, ao mesmo tempo, problematizar conceitos como raça, racismo, essencialismo, cultura, diáspora Africana e identidade. Palavras-chave: Hip Hop; trajetória de vida; Sorocaba; identidade negra; diáspora africana

Negros e pardos são 22,5% da população

http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/581572/negros-e-pardos-sao-225-da-populacao


Telma Silvério 


20/11/14 | Equipe Online - online@jcruzeiro.com.br
O número de pessoas que se declaram negras ou pardas em Sorocaba é de 143.731, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento, desse total de pretos e pardos (de acordo com nomenclatura adotada pelo IBGE), 73.539 são homens e 70.192 mulheres. Em 2000, esse total era de 86.541 pessoas, sendo 44.938 homens e 41.603 mulheres. Com base nesta última estatística, pouco menos de um quarto (22,5%) do total da população do município -- estimada em julho deste ano em 637.187 habitantes -- é formada por pessoas da raça negra. 



Para Ademir Barros dos Santos, estudioso da africanidade e membro do Núcleo de Cultura Afro-Brasileira (Nucab) da Uniso, o aumento da população afrodescendente é atribuído a duas vertentes. A primeira é pelo estímulo de discussões sobre o que é o negro e o que é ser negro, seja por meio dos movimentos e da ação efetiva da militância. Santos revela que, antes, principalmente os pardos, escondiam a sua própria cor por medo ou até vergonha. "Hoje essa discussão tem permitido que as pessoas apareçam e assumam sua cor." Outra vertente, acrescenta, é o aparecimento da cultura negra e mestiça e, consequentemente, a sua valorização. 


Para o estudioso do Nucab, a valorização da cultura negra é evidente. "Paulo Freire dizia, e antes existia mesmo, uma situação-limite para a situação do negro." Santos acredita que a "prisão cultural" em que se encontravam os negros vem se rompendo. Por outro lado, ele destaca um racismo mais violento nos dias atuais. "O racismo que vitima os negros está mais forte e explícito. Vem se perenizando há quinhentos anos e continua existindo e até se universalizando. Isso até por conta da velocidade das informações", considera. 


Os dados indicam o resultado de um trabalho para melhorar a visibilidade da cultura negra, seja pelos movimentos sociais e políticas públicas, ressalta a Coordenadoria da Igualdade Racial da Secretaria de Desenvolvimento Social, Lucimara Rocha. 


A advogada Tamara Braga, da Comissão da Igualdade Racial da OAB - Subseção de Sorocaba, afirma que esse crescimento de pessoas que se reconhecem negras é um processo que se evidencia em todo o país. "É reflexo do fortalecimento da questão identidade", comenta. "Acredito que esses dados mostram um avanço da população que hoje não teme a sua etnia. Ao contrário, vê-se cada vez mais a abertura de espaço para a valorização da cultura afro-brasileira." 


As profissões que raramente eram ocupadas por negros hoje têm referências para os afrodescedentes, observa a advogada. Tamara Braga fala do aumento de jovens negros nas universidades em busca da mesma oportunidade. Também cita personalidades como a primeira juíza afro-brasileira, Luislinda Valois; e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Além de estar presente em diversas áreas profissionais, o negro ganhou mais visibilidade na mídia, com personagens não somente em papéis de submissão ou menos importantes. "Trazem aos jovens negros, às crianças negras, referências positivas que reforçam o processo de reconhecimento", avalia ela. 


Embora o Brasil tenha avançado em políticas públicas, a coordenadora de Igualdade Racial, Lucimara Rocha, explica que "ainda falta muito". Além das cotas em universidades, ela cita a lei 10.639/2003 que inclui o ensino de cultura afro na educação. Apesar de existir há onze anos, ela não é aplicada na prática. 


É preciso uma ação mais efetiva do Ministério da Educação, dos governos e demais setores, cobra o estudioso do Nucab, Ademir Barros. A lei tem onze anos e nas salas de aula o debate sobre a cultura negra é estimulada normalmente em novembro, mês em que é comemorado o Dia Nacional da Consciência Negra. "O negro continua a aparecer na escola como escravo", lamenta Santos.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

PASSEIO MEMÓRIAS NEGRAS SOROCABANAS

Terra rasgada, cidade tropeira, Manchester Paulista ,nossa terra tem muitas lembranças que abrandam e inspiram momentos de grandeza,pois na sua beleza humaniza até a escravidão ,apagando suas marcas, mudando trajetórias, mas sobraram memórias que lembram os fatos escuros ,retratando um mundo que nos leva a pensar.
Pra começar, vamos no Mercadão relembrar a Capela que ali existiu, território negro ,tinha rodas e água ,imperou a chibata da desapropriação não ficou um quinhão pra poder nos lembrar ,coube então soterrar ,só no resta comprar...
Logo a frente vamos pra Catedral, encontrar Benedito,este santo assumido que viveu excluído no seu traço europeu mas se o homem é de Deus não tem só uma feição ele é preto meu irmão e não se esconde mais.
E a nossa senhora, resgatada na rede trouxe peixes no rio hoje foge de outras águas, que apagam as marcas de um negro devoto, lá se vai um registro vai restar só um mito sobre aparição ,se não houve perdão fica apenas a pena já não vejo a cena  só nos resta o respiro.
Encontramos a praça e vejo as oligarquias, na soberba distinta com sorriso no olhar ,era o “Footing” nos finais de semana, com uma banda bacana todos a desfilar, tenha calma vamos sem “misturança” cada classe da dança deve ser respeitada e não venha com grassa se você é mais escuro ,não separo com muros mas no círculo do mundo todos tem seu lugar.
Vamos indo ,a irmandade sorrindo, consagrando seus ritos na porta “sinhô”, com pavor vamos logo saindo, o lugar é distinto pra negro edificar, ainda tem nesse mundo quem acredita que a fé tem formato e até, uma regra de cor, pois somente um senhor pode edificar
No caminho seguindo vejo falsos heróis, registrados em placas, escondidos nas datas que amenizam a dor ,apagando o horror de um tempo sombrio  deste nosso Brasil que insiste em assombrar é importante lembrar pra não deixar esquecer ,quem bateu fez doer é um conforto esquecer!
Rua íngreme logo se aplana vem aquela lembrança desta nossa festança, escuto nossos tambores ,Umbigada, energia vital, harmonia geral pra quem se permite sentir,  ocupamos a praça pra lembrar das Capelas e acendemos a vela da lembrança sem casa ,que não aceitava pousada,  descansou sem uma vala mas ganhou moradia.
Lá na rua da Bica seguimos ao Ventre Livre, atirando sem rifles em sonhos de liberdade buscamos a humanidade o acaso apronta e no traz um emissário de um longínquo cenário que nos faz indagar:
Como vão os irmãos frutos da escravidão, encarando o destino de um tirano escolher, como pode oprimir pra poder excluir que não foi incluído e continua perdido construindo seus mitos de uma terra melhor.

Caminhando passamos pela irmandade de São Benedito relembramos seus ritos e seguimos andando, não mudamos os planos, pois já esta terminando a viagem no tempo, eu não fiz juramento mas eu quero cumprir o caminho final  ver aquela escultura que já está meia aflita ,remetendo a feridas que não querem fechar ,não queremos lembrar mas não podemos esquecer  e com muito prazer vou ficar por aqui foi assim que eu senti, agora posso sorrir, relembrar, resistir...   

MANOEL FRANCISCO FILHO

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Mãe Preta

Quadro da Mãe Preta... Amamentando o filho do "senhor", sendo obrigada a negligenciar o seu...
Fonte: http://conservasp.blogspot.com.br/2011/05/fotos-que-mostram-falta-de-conservacao.html

Fonte: http://www.diariodesorocaba.com.br/noticia/217559
Foto: Pedro Henrique Negrão

Vida Social dos Negros Sorocabanos em 1978


Em 1978, três ou quatro negros apenas eram sócios do Sorocaba Clube, "marca que é seguida, também, por alguns outros clubes".